Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, destaca que o acúmulo de pressões sobre o crédito corporativo brasileiro ao longo de 2025 e 2026 não produziu apenas um aumento nos índices de inadimplência: produziu, de forma simultânea, um repositório expressivo de ativos com potencial de recuperação que ainda não foi integralmente precificado pelo mercado. Dados do Banco Central de maio de 2026 indicam que a carteira de crédito corporativo em atraso superior a 90 dias atingiu R$ 187 bilhões, volume que representa uma expansão de 28% em relação ao mesmo período de 2025 e que sinaliza a abertura de um ciclo de oportunidades relevante para gestoras e investidores especializados em crédito não performado.
A diferença entre crise de liquidez e insolvência estrutural
Nem todo crédito corporativo em atraso reflete uma situação de insolvência irreversível. Grande parte das empresas que figuram nas carteiras inadimplentes dos bancos brasileiros em 2026 enfrenta, na prática, uma crise de liquidez com origem em descasamento de prazos entre ativos e passivos, e não uma deterioração estrutural do modelo de negócios. Felipe Rassi indica que distinguir com precisão esses dois perfis é o primeiro exercício analítico que separa operações bem-sucedidas de alocações mal calibradas no mercado de NPL.
Empresas em crise de liquidez tendem a responder melhor a soluções de reestruturação que envolvam alongamento de prazos, carências negociadas e reperfilamento de taxas. Companhias com insolvência estrutural, por outro lado, exigem abordagens mais complexas, que podem incluir desinvestimento de ativos, conversão de dívida em participação societária ou, em casos extremos, liquidação ordenada com maximização do valor residual para os credores.
Análise de risco em carteiras heterogêneas
A composição típica de uma carteira de crédito corporativo não performado raramente é homogênea. Setores diferentes, perfis de garantia distintos, estágios variados de inadimplência e históricos de relacionamento com o credor original criam um conjunto de variáveis que torna a análise de risco um exercício necessariamente granular. Modelos que aplicam premissas uniformes a carteiras heterogêneas tendem a subestimar perdas em segmentos específicos e a superestimar o potencial de recuperação de ativos com garantias de difícil execução.

Conforme detalha Felipe Rassi, a segmentação interna da carteira adquirida é uma prática essencial para a gestão eficiente do portfólio. Agrupar ativos por perfil de recuperabilidade, prazo estimado de resolução e estratégia de abordagem ao devedor permite que a gestora aloque recursos operacionais de forma proporcional ao potencial de retorno de cada cluster, evitando o desperdício de capacidade técnica em posições com baixo valor esperado.
Crédito garantido versus crédito quirografário: impactos na estratégia de recuperação
A natureza jurídica da garantia associada ao crédito estressado determina, em grande medida, o leque de estratégias disponíveis para sua recuperação. Créditos com garantia real, como alienação fiduciária de imóveis ou penhor de recebíveis, oferecem um caminho de execução mais direto e com maior previsibilidade de prazo e valor. Créditos quirografários, sem garantia específica, dependem em maior grau da capacidade de negociação extrajudicial ou da posição do credor dentro do quadro geral de credores em um eventual processo de recuperação judicial.
Na avaliação de Felipe Rassi, especialista jurídico com atuação no mercado financeiro, a composição ideal de um portfólio de créditos estressados deve equilibrar posições garantidas, que oferecem maior segurança de recuperação, com posições quirografárias adquiridas com deságios suficientemente expressivos para compensar o risco adicional assumido. Esse equilíbrio varia conforme o apetite de risco do investidor e o horizonte de retorno definido para o fundo ou veículo de investimento.
Oportunidades emergentes no crédito de médio porte
O segmento de crédito corporativo de médio porte, empresas com faturamento entre R$50 milhões e R$ 500 milhões, concentra algumas das oportunidades mais relevantes do ciclo atual. Trata-se de um universo que os grandes bancos têm dificuldade de atender com a profundidade necessária para operações de reestruturação complexas, e que ainda não desperta o mesmo interesse dos fundos internacionais voltados para transações de maior volume.
Como aponta Felipe Rassi, esse espaço intermediário cria uma assimetria de competição favorável para gestoras nacionais com capacidade técnica de conduzir due diligence aprofundada e estruturar soluções personalizadas de recuperação. Carteiras originadas nesse segmento tendem a apresentar deságios mais atrativos e menor concorrência na etapa de aquisição, o que potencializa o retorno ajustado ao risco para investidores com horizonte de médio prazo.
Se você atua na gestão de ativos, em fundos de crédito ou no mercado financeiro corporativo e quer aprofundar sua leitura sobre as dinâmicas do crédito não performado no Brasil, acompanhar análises técnicas especializadas é um caminho direto para tomar decisões com maior precisão e menor exposição a riscos não mapeados.